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Se quiser desistir, desista!

 


Em tempos de coachs, o que mais se ouve é “essa situação quer lhe mostrar algo, basta mudar o mindset para superá-la”.


Eu, particularmente, há tempos ando cansada desse discurso e de todas as generalizações perigosas que são usadas quando repetimos que “com foco, força e fé tudo será resolvido”. É bem verdade que nossa vida acontece em concordância com as verdades que acreditamos sobre nós mesmos, mas meu incômodo mora na generalização do discurso de que “basta querer”, “isso vai lhe ensinar sobre resiliência”. Sabemos que, na realidade, não é assim que as coisas funcionam.


Li recentemente uma matéria em que pesquisadores analisaram dados de quase mil norte-americanos acima dos 40 anos que participaram de três rodadas de entrevistas: entre 1995 e 1996, entre 2004 e 2006, e entre 2013 e 2014. Em cada oportunidade, os indivíduos relatavam emoções positivas que tinham experimentado nos últimos 30 dias e, nas avaliações finais, todos eram submetidos a testes de memória, que consistiam em lembrar imediatamente as palavras que eram ditas pelo interlocutor e repeti-las 15 minutos depois. Para Claudia Haase, professora da Universidade Northwestern, apesar da constatação de que a memória se deteriora com o envelhecimento, “as pessoas que dispuseram de sentimentos positivos apresentaram um declínio menor dessa capacidade de esquecimento”.


E veja, esse também é um viés com o qual concordo: a prática de olhar o copo meio cheio em vez de meio vazio. No entanto, o que tem se alastrado nas redes sociais é o positivismo tóxico. Isso coloca todos no mesmo barco. 


Falando de pesquisas, são inúmeras as que apontam melhoras significativas em pacientes que, em conjunto com o tratamento, tiveram um olhar positivo para o seu diagnóstico. E veja, não porque pensaram positivamente apenas. Um conjunto de fatores que os levaram a isso é completamente desconsiderado quando falamos que “é só pensar!”. Usar esse discurso é, de algum modo, fazer com que uma infinidade de pessoas, ao olhar para a própria realidade, pense estar errando o caminho daquilo que a sociedade chama de sucesso, desconsiderando variáveis humanas importantíssimas.


Como no filme "Divertida Mente", não é sempre que a alegria tomará conta da torre de controle (e que lindo seria se fosse assim). Não é saudável pensar que, ao planejar a vida como uma receita de bolo, teremos vidas perfeitas. A rede social é feita de recortes; comparar um recorte feliz do outro com a nossa realidade é um convite à frustração.

Ao longo da vida, somos desafiados por diversos problemas que testam nossa capacidade de resolvê-los. Percebo que, à medida que a utilização da internet se propaga, temos mais discursos rasos de que basta desejar constantemente todos os dias algo para que o nosso desejo enfim se materialize. E veja, longe de mim querer criticar ideologias, crenças e credos (respeito todas e tenho as minhas), mas o fato é que muitas situações que nos são apresentadas como uma bomba às 16h de uma tarde de terça-feira são insolúveis, não há o que se fazer. 


Em uma entrevista recente de Viola Davis ao Pedro Bial, ela falou uma frase que me deixou bastante reflexiva: “Coragem às vezes é estar em uma sala e ser a única pessoa a dizer ‘quer saber, eu não acredito nisso’. Ter coragem é saber que pertencer a si mesmo é mais importante do que se encaixar na multidão”.


Eu não tenho nenhuma conclusão para o positivismo tóxico ou para as grandes lições a serem aprendidas após as montanhas de problemas que acontecem frequentemente na nossa vida, mas acredito muito na nossa coragem de reconhecer que alguns lugares, empregos, pessoas e situações não merecem o nosso esforço para tentar resolvê-los. Às vezes, coragem não é enfrentar, porque enfrentar nos fere, machuca nossas verdades. Coragem também é perceber que ir embora sem “vencer” também é ganhar. Porque vencer também é dar um pequeno passo em direção às despedidas das batalhas que não ganharemos, pois os valores de quem está do outro lado da luta são completamente diferentes.


Diante disso, faço o convite a uma reflexão: E se, ao invés de nos preocuparmos com as “linhas imaginárias de chegada”, passássemos a nos perguntar se chegaremos inteiros e fiéis a nós mesmos?


E se passássemos a nos perguntar se, no caminho do desejado sucesso, perderemos um pedaço daquilo que construímos na infância, dos valores que antes eram tão importantes, por exemplo.


Se não há clareza para responder essas perguntas, a tendência é ser arrastado para disputas de poder, embates de opiniões coletivas.


Será que vale a pena abandonar dia após dia as nossas verdades em nome de um minuto no “pódio”?

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