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‘Mães equilibristas’ buscam harmonia entre criação dos filhos, vida profissional e pessoal

Mulheres relatam os desafios vividos com a maternidade e destacam a importância de uma rede de apoio

Uma equilibrista enfileira as varetas que vão apoiar todos os pratos e, em seguida, começa a girá-los. O objetivo é que eles não caiam. Essa é a descrição de uma apresentação circense, mas também pode ser uma analogia para resumir a rotina de muitas mulheres. Nesse caso, cada prato representa um papel desempenhado: mulher, esposa, mãe, profissional, entre outros.


A maternidade é um dos pratos que muitas mulheres mais destinam seus cuidados e atenções e, ao mesmo tempo, é o que gera mais culpas, medos e incertezas. Buscando equilibrar o papel de mãe e profissional, por exemplo, muitas acabam tendo duplas jornadas, comprovadas por uma pesquisa realizada pela Infojobs, plataforma de vagas de emprego.

De acordo com o levantamento, 83% das mulheres vivem duplas jornadas de trabalho, tendo que conciliar os empregos com os cuidados com crianças, idosos ou com os afazeres domésticos. Do total de entrevistadas, 45% relataram não contar com uma rede de apoio ou com a ajuda dos parceiros.

A empresária Angélica Duarte se encaixa no primeiro grupo e reconhece a importância de ter uma rede de apoio e um companheiro para dividir a criação dos filhos. Mesmo assim, para ela, o equilíbrio entre a maternidade e a vida profissional não deixa de ser um malabarismo.

Angélica é mãe de três filhos: Ana Beatriz, de oito anos; Benjamin, de cinco anos; e Helena, de dois anos. Ela concilia o papel de mãe com o trabalho à frente de uma empresa de produção de vídeos e marketing digital, além de atuar como a presidente do BNI Black, que reúne empresários de diversos setores para trocas de experiências.

Segundo a empresária, o sonho de ser mãe veio na juventude e cada filho trouxe experiências diferentes. Seja durante as gravidezes ou já diante dos cuidados com as crianças, Angélica enfrentou vários desafios profissionais em paralelo: mudou de emprego, depois de carreira, estudou e começou a empreender.

“Quando eu tive minha primeira filha, eu trabalhava como CLT. Tive cinco meses de licença-maternidade e logo voltei a trabalhar. Aquilo doeu, mexeu muito comigo. Eu não vi ela começar a andar, por exemplo. Então, decidi buscar uma estratégia para ter uma rotina mais flexível, como a que tenho hoje”, afirma.

Uma das experiências mais desafiadoras da maternidade se apresentou para Angélica na gravidez do segundo filho. Na 13ª semana de gestação, um ultrassom morfológico revelou que o fígado e algumas alças intestinais estavam crescendo fora do corpo da criança, em um quadro posteriormente diagnosticado como onfalocele.

Logo após o nascimento, Benjamin passou por uma cirurgia e ficou internado oito dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). “Nesse período, ele teve uma parada respiratória e chegou a perder o acesso a remédios que ele não poderia deixar de tomar. Muitas coisas ruins aconteceram, foi difícil”, relata a empresária.

Superada essa etapa, quando Benjamin tinha cinco meses, a mãe percebeu que a mão direita do filho não abria. “Fomos a um neurologista infantil, que pediu exames e percebeu uma mancha no cérebro. O diagnóstico dele foi de hemiparesia, um tipo de paralisia”, explica.

A empresária conta que lidou com todas essas questões enfrentando, ainda, uma depressão pós-parto. “A fase mais difícil foram os primeiros dois anos do Benjamin, mas eu tive muita ajuda dos meus pais e do meu marido. Até porque também tinha a Ana Beatriz, que não podia ser deixada de lado. Eu fiz terapia, passei por uma psicóloga e tive que ir pegando os caquinhos e colando, porque eu amava os meus filhos”.

Quando a terceira filha nasceu, Angélica diz que já estava no “ritmo frenético do empreendedorismo” e alguns meses depois, teve que encarar, inclusive, a primeira viagem internacional a trabalho, e longe das crianças. “Eu digo que a Ana Beatriz me trouxe maturidade; o Benjamin me fez descobrir uma força que eu não sabia que tinha; e a Helena me deu esperança, porque os médicos achavam que ela poderia ter uma malformação semelhante a do irmão, mas isso não se confirmou”, resume.

Angélica conta que, até hoje, é um desafio conciliar todos os papéis que representa na rotina. “Estou indo nesse malabarismo e aprendendo que algum prato vai cair. Tenho que entender que não sou perfeita, que vou errar e preciso encontrar formas de seguir. Como mãe, meu papel é formar seres humanos fortes para enfrentar a vida. Consigo ver que estou fazendo um bom trabalho”, finaliza.


Sem rede de apoio


Empresária do ramo da beleza, Lisa Tavares também enfrentou essa busca por equilíbrio entre a maternidade e a vida profissional. Foi mãe aos 17 anos, quando ainda estudava e trabalhava em uma rede de lanchonetes. Ao lado do marido, mudou-se para o Japão quando a filha, Giovana, estava com pouco mais de dois anos.

“Foi assustador no primeiro ano. Eu não tinha rede de apoio, não tinha com quem deixá-la. Além do preconceito por não ter descendência japonesa, o fato de ter uma filha foi uma barreira, porque me restringiu alguns tipos de trabalho. Por sorte, eu falava um pouco de japonês e isso me abriu portas”, relata Lisa.

No país, ela trabalhou em um posto de gasolina e em um campo de golfe, enquanto Giovana ficava na escola. “No Japão, é natural que as pessoas não tenham essa rede de apoio. Então, as escolas são em período integral e, após as aulas, as instituições de ensino têm creches para onde as crianças vão até que os pais possam buscar. Mesmo assim, elas só funcionam até meio-dia, aos sábados e, na época do posto de gasolina, minha filha ficava comigo no trabalho após esse horário”.

Ainda em solo japonês, Lisa se interessou por cursos de estética, conhecimento que seria utilizado com mais frequência quando voltasse ao Brasil, depois de oito anos no país. Na ocasião, a empresária se separou, deixou o Japão com a filha e decidiu se estabelecer em Sorocaba, onde também não tinha família e uma rede de apoio.

“Eu tive que recomeçar do zero. Por falar japonês, tentei ser assistente bilingue. Cheguei a fazer entrevistas, mas elas não tinham continuidade. Então, como eu trouxe equipamentos para atendimento de estética, montei uma clínica na sala da minha casa e comecei a trabalhar. Eu colocava cartões embaixo das portas dos apartamentos e entregava panfletos nos semáforos. Foi do zero mesmo”, relembra.

Lisa afirma que, nessa época, quando não estava na escola, a filha ficava sozinha em casa. “Ela já veio de uma cultura onde as crianças eram acostumadas a ficar na escola, por isso, não foi tão assustador. Aqui no Brasil, as mães sofrem por deixar os filhos muito tempo na escola, mas, para mim, isso era uma tranquilidade. Éramos só nós duas. Então, no fim do dia, chegávamos em casa, fazíamos uma comidinha e começávamos tudo de novo no dia seguinte”, conta.

“É nessa hora que eu acho que a mulher se sente muito culpada. Quando falam que damos conta, defina dar conta. Eu acho que nunca damos conta totalmente e sempre ficamos com aquele sentimento de que devíamos ficar mais com os filhos. Mas, no meu caso, não dava, não era a minha realidade. Eu tinha que levar o sustento para casa e não tinha essa escolha de poder ficar com ela”, frisa Lisa.

Hoje, Lisa tem a própria clínica de estética e a filha está com 21 anos. Ao analisar essa busca pelo equilíbrio entre a maternidade e a vida profissional, a empresária e mãe reconhece ter feito o melhor possível. “Acho que o principal papel da mãe é ensinar e, quando é preciso conciliar, é importante passar tudo aos filhos, inclusive respeito e cuidado com o próximo. Nós nos ajudamos bastante e eu acho que isso foi o que eu fiz de melhor”, finaliza.


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