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"É que narciso acha feio o que não é espelho"

Uma crônica sobre positividade e redes sociais

Percebo uma prevalência de menções às palavras "ciclo" e "jornada" nas redes sociais, onde muitos compartilham sobre o fechamento de capítulos e experiências, sugerindo implicitamente que o sucesso enfim chegou.


No entanto, é raro encontrar postagens autênticas de pessoas que enfrentaram desafios ou não se sentiram realizadas em determinados contextos. Ao sair de relacionamentos pessoais ou profissionais, muitas vezes adotamos uma atitude indiferente, celebrando novas oportunidades ou apontando falhas nas relações anteriores e nos antigos parceiros/trabalhos.


Mas e quando somos nós que não nos encaixamos? Somos maduros para reconhecer?


É fundamental reconhecer a falta de adequação em algum momento, e ainda mais importante abordar essa questão sob uma perspectiva que não nos favorece, reconhecendo a verdade nas críticas recebidas.

Somente com maturidade e sem espelho de narciso podemos evoluir e crescer como indivíduos. 


No livro "Desculpability", o autor João Cordeiro explora nossas tendências de atribuir a "culpa" dos nossos fracassos e não entregas a fatores externos, quando muitas vezes a responsabilidade é totalmente nossa.


Cegados pela vaidade de uma imagem idealizada de nós mesmos (o ego grita), às vezes transferimos a responsabilidade pelo nosso insucesso para terceiros, seja a direção da empresa, a crise, as entregas que não concluímos ou as circunstâncias adversas.


Embora esses fatores possam ser reais, a mudança em alguns cenários só ocorre quando olhamos para o problema sob o viés da autorresponsabilidade.

E não, não seremos perfeitos como as "redes sociais" (que não são sociais e nem reais) mostram.


É essencial lembrar que antes de falar sobre novos ciclos ou jornadas, devemos questionar se estamos prontos para uma jornada interna de crescimento. Somente assim poderemos nos tornar indivíduos melhores (e me incluo nisso, inclusive).


Também percebo o excesso de positividade nas redes sociais e uma tendência em que as pessoas se sentem compelidas a compartilhar apenas aspectos positivos de suas vidas, criando uma imagem irreal e inatingível de felicidade e sucesso. Isso pode nos levar à pressão para manter essa fachada e à supressão de sentimentos negativos legítimos, o que pode ter consequências prejudiciais para a saúde mental, por exemplo.


O quanto estamos dispostos a promover a cultura de autenticidade e aceitação nas redes sociais, onde as pessoas se sintam à vontade para compartilhar tanto suas alegrias quanto suas lutas, sem medo de julgamento ou rejeição?


Sem o "faz de conta social" a que estamos diariamente submetidos e sem o espelho narcísico do super-humano que acreditamos ser, quem REALMENTE somos?

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