Em um grupo recente de prática de escrita, a proposta era fazer uma carta e lê-la para a sua dupla na atividade, como se a imagem do outro representasse a figura do destinatário, nesse caso, "uma carta para a minha mãe". A minha dupla do exercício já não tinha uma mãe viva, e notei que ao escrever, ele chorava copiosamente.
Sabe, é difícil pensar que a mesma pessoa que me viu nascer e crescer não me verá partir. Essa é a ordem natural das coisas, como bem cantou Emicida. A pessoa que me deu a vida e viu meus primeiros fios de cabelo tomando forma de cachos não verá esse mesmo cabelo ficar branco feito neve, não verá minha pele enrugada, tampouco estará presente no meu aniversário de 100 anos. A garganta fica feito um nó ao pensar que a mulher que foi responsável por me apresentar a primeira refeição talvez não esteja presente na última – quando as minhas mãos trêmulas tentarem encaminhar alimento até a boca.
Não há outra palavra para defini-la que não seja: TUDO. E mesmo sendo tudo, mamãe estará presente apenas em uma pequena parte do meu caminho aqui no mundo.
O primeiro banho foi dado por ela, suas mãos atentas seguraram meus braços, a barra e a onda quando a vida adulta foi mar agitado. E o último banho? Sabe Deus quem dará. Será que com o mesmo cuidado do primeiro? Possivelmente não. A pessoa que me ensinou sobre amor não estará aqui para me ensinar sobre saudade. Imagino que a maior que sentirei.
Foi minha mãe quem ouviu minhas primeiras palavras, no entanto, não saberemos se será ela quem ouvirá as últimas.
No auge da sensatez, jamais deixaríamos uma "urgência" para amanhã. E por que deixamos o amor? É preciso desfazer a certeza de que existirá outra oportunidade – ser convicto de que haverá amanhã é, de algum modo, correr o risco de chorar feito criança, em um domingo qualquer, ao escrever uma carta para uma moradora do céu. E não haverá mais um quarto para ir como fazíamos quando na infância o assunto era de "gente grande". Porque na vida adulta, o quarto é o mundo.
Em vários momentos na leitura da sua carta, o meu par na partilha da escrita teve a voz embargada pela saudade. Ele fez uma "lista de coisas não ditas". Ao ouvir, chorei junto e senti um misto de tristeza e alegria (eu tenho minha mãe).
No meio daquele dia, liguei para ela, que ao atender, logo perguntou se algo havia acontecido, e de fato, aconteceu.
O amor é urgente e eu esqueço disso. Porque mesmo sendo adulta, ainda não aprendi a ser.
A ligação é melhor que a carta...
Já ligou hoje?
