Resenha: Marighella além dos Mitos! - Itupeva Agora

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11/06/2021

Resenha: Marighella além dos Mitos!

  



por Thales Mileto



Em um ano de polêmicas para os brasileiros, estreou na última quinta-feira (4), provavelmente, o filme mais polêmico do ano de 2019, isso mesmo que você leu! Marighella, a cinebiografia que conta os últimos 5 anos do deputado guerrilheiro Carlos Marighella, que era para ter estreado nos cinemas dia 20 de novembro daquele ano, só chegou às telonas neste ano, após uma guerra entre a produtora do filme e a Ancine (Agência Nacional de Cinema). E o Itupeva Agora foi convidado do Moviecom no Maxi Shopping para a pré-estreia, então fica aqui o nosso agradecimento pelo convite e pela recepção que foi dada ao nosso enviado.


Estreando na direção, Wagner Moura não ficou em cima do muro e mostrou que o filme tem lado, após dar nome real ao que aconteceu em 1964. Golpe! Daí para frente o ator estreante mostrou ter feito uma série de escolhas certas, a ação dada ao filme, o recorte histórico da história baseada na biografia Marighella – O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo (Companhia das Letras | 2012), a escalação de Seu Jorge para o protagonista (e o debate sobre o embranquecimento de personagens históricos brasileiros) a trilha sonora, curta, mas com a poesia de Gonzaguinha e a revolução de Chico Science e Nação Zumbi, dão o tom de um filme que apesar do tamanho, 2h40 min, é adrenalina o tempo todo. Mas não podemos deixar de falar que os diálogos no roteiro deram algumas escorregadas, principalmente pelos palavrões jogados ao ar, falas como “é isso aí” (não é piada com Seu Jorge) e do mal aproveitado personagem do ator Bruno Gagliasso (que mesmo assim atuou muito bem). 


O ponto alto do longa metragem, a narração em primeira pessoa do próprio Marighella, prende o espectador por mais de duas horas e o ajuda a se situar no tempo, já que o filme não é linear, e mesmo narrando parte da década de 1960, o filme mostra o seu poder de ser atual, não apenas por parte da direita se levantar contra o longa (o que o reafirma como ícone), a atualidade como os conflitos entre pais e filhos, algo atemporal, a distância metafórica ou até mesmo geográfica entre eles; Sobre a preocupação do guerrilheiro comunista de como o filho trataria as mulheres; O debate entre a verdadeira cor de Jesus Cristo; A mordaça sobre a imprensa e a falta de liberdade (só para deixar claro, por mais que atualmente o conflito entre a imprensa e governo e atitudes duvidosas de quem nos governa, nada é comparável ao que se vivia naquela época).



O filme tem quatro pontos fundamentais, fala do deputado federal condenado a ilegalidade após 1964 e a sua prisão (e quase execução);  Marighella revolucionário após a elaboração do “Mini Manual do Guerrilheiro Urbano” (obra traduzida em outros idiomas) e a organização da Ação Libertadora Nacional (ALN) e as suas ações como o  assalto ao trem pagador da linha Jundiaí (onde roubaram armamentos) e aos bancos; As ações mais marcantes das guerrilhas urbanas (neste ponto não houve a glorificação do injustificável, é aí que o mito é humanizado pelo diretor), como a carta branca dada pelo líder para o assassinato do empresário Henning Boilesen (que era colaborador da OBAN – Operação Bandeirante –, órgão de repressão do Regime Militar), ou a explosão em frente ao Conjunto Nacional, prédio na avenida Paulista onde ficava o Consulado norte-americano, a radiodifusão ao vivo da mensagem de Marighella falando diretamente ao ouvinte quais eram as reivindicações da ALN e denunciando pela primeira vez a tortura que os presos sofriam, e o sequestro odo embaixador norte-americano sequestro do embaixador Charles Elbrick (organizado pelo MR8 -Movimento Revolucionário Oito de outubro- e com participação de membros da ALN); E o dia da morte de Marighella, os freis dominicanos sendo torturados, da emboscada da OBAN (comandada pelo delegado Sérgio Fleury, do Dops -Departamento Estadual de Ordem Política e Social), no qual, deixa claro que o revolucionário foi executado, de que ele não reagiu a prisão. 


Parecendo pouco preocupado, com a crítica técnica e intelectual tenha a respeito do filme, Wagner Moura apresenta ao brasileiro médio e talvez de classes mais baixas (o diretor está levando o longa para apresentações em acampamentos sem terras) o personagem quase apagado da história brasileira, o político, o deputado, o baiano, o torcedor do Vitória da Bahia, o poeta, o escritor, o comunista, o guerrilheiro e o considerado pela ditadura militar o inimigo número 1 do Brasil, ou se você preferir, apenas Carlos Marighella, que é desmistificado, do papel de herói e vilão, para o grande público em pouco mais de 160 minutos. 

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