Engana-se quem acredita que uma consulta com o dentista seja válida apenas para cuidar da saúde bucal. Há doenças comuns que podem ser identificadas por cirurgiões-dentistas, como diabetes, câncer, cirrose hepática e até a Covid-19.

De acordo com a coordenadora do curso de Odontologia da Anhanguera Jundiaí, Nicole Goncalves Lima, a explicação está no fato destas enfermidades impactarem diversas áreas do corpo, além de provocar alterações no metabolismo. A especialista comenta Ela diz que as manifestações pela boca podem ocorrer antes mesmo de sintomas mais graves. Por isso, a importância de check-ups periódicos com dentistas.

Segundo um estudo espanhol de maio de 2020, no caso da Covid-19 – além da disgeusia (perda do paladar) – mais de 25% dos pacientes infectados apresentam alguma outra alteração bucal, que pode aparecer como: lesão avermelhada em palato (similar a estomatite herpética); bolhas avermelhadas na mucosa labial; gengivite descamativa e manchas arredondadas e avermelhadas em lábio e face.

Outro estudo, mais atual, traz uma alteração bem característica da contaminação do coronavírus, a “língua de Covid-19” como sintoma.1,2 Além das manifestações bucais da infecção, a presença de problemas bucais prévios pode favorecer o avanço e a gravidade da doença.

Segundo pesquisas, a periodontite ganhou mais força após estudo conduzido no Catar associar a doença periodontal a casos graves de Covid-19. Depois de avaliarem radiografias de 568 pacientes, que tiveram as duas doenças, puderam observar que pessoas com a forma mais grave de periodontite tinham risco três vezes maior de serem entubados, internados na UTI ou chegar ao óbito. ³

“A periodontite está associada a doenças cardíacas e respiratórias, diabetes e obesidade. E esses problemas são frequentemente ligados aos casos mais sérios de Covid-19”, diz Nicole.

A coordenadora ressalta que, além de ficar atento aos sintomas da Covid-19, é essencial ficar alerta a outras doenças que podem apresentar sintomas bucais. Confira:

Diabetes: o Brasil é o 5º país com a maior incidência da doença na população. São 16,8 milhões de pessoas, entre 20 e 79 anos, que convivem com a doença. Segundo o Atlas da Diabetes, da Federação Internacional de Diabetes, estima-se que até 2030 o número chegue a 21,5 milhões. O dentista pode auxiliar na identificação da doença pela avaliação da cavidade oral, análise salivar e presença de cáries nos dentes. Por exemplo, um paciente que nunca teve cáries, chega a apresentar duas ou três de uma vez. Isso pode acontecer porque o organismo está com dificuldades de processar o açúcar. Ou mais, dores na gengiva, sangramento e a boca seca podem ser sinais preocupantes. Exames periódicos podem evitar problemas.

Câncer: Alterações na boca e lábios, sensibilidade nos dentes e dor com um mínimo de trauma podem ser sinais. Alguns tipos de câncer malignos podem ser manifestados pela boca. É o caso da leucemia ou linfoma que ocasionam o aumento da gengiva e lesões mais graves como verrugas. Há ainda um tipo específico que pode ser observado pelo dentista, o câncer de boca. Apesar de silencioso, o câncer de boca causa ferimentos dentro da boca e nos lábios que são difíceis de cicatrizar. De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA), o câncer de boca está entre os dez tipos mais comuns no Brasil. Os fatores que agravam a doença são: tabagismo, alcoolismo, radiação solar e HPV. O tumor é mais comumente encontrado em homens acima de 40 anos.

Cirrose hepática: a doença pode aparecer na forma de lesões, erosões ou bolhas na boca. O céu da boca e embaixo da língua ficam pálidos. Mau hálito, ou odor hepático também podem ser sintomas identificados pelos dentistas. Outro fator de risco é a periodontite ou a perda dos dentes.

Sarampo: com uma crise recente, o vírus se manifesta por meio de pontos esbranquiçados na bochecha, bem como na mucosa jugal, recebendo o nome de Manchas de Koplik. Essas manchas, que parecem pequenas úlceras, surgem dois ou três dias antes das manchas na pele.

A visita periódica ao dentista é muito importante para a identificação precoce destas e outras doenças que podem passar despercebidas pelo paciente. O diagnóstico precoce aumenta as chances de cura e o sucesso do tratamento”, finaliza a coordenadora do curso de Odontologia da Anhanguera Jundiaí.

  1. CARRERAS‐PRESAS, Carmen Martín; SÁNCHEZ, Juan Amaro; LÓPEZ‐SÁNCHEZ, Antonio Francisco; JANÉ‐SALAS, Enric; PÉREZ, Maria Luisa Somacarrera. Oral vesiculobullous lesions associated with SARS‐CoV‐2 infection. Oral Diseases, [s.l.], p. 1-10, 5 maio 2020. Wiley. http://dx.doi.org/10.1111/odi.13382.
  2. CASAS, C. Galván. CLASSIFICATION OF THE CUTANEOUS MANIFESTATIONS OF COVID-19: A RAPID PROSPECTIVE NATIONWIDE CONSENSUS STUDY IN SPAIN WITH 375 CASES: supplementary material: photographic atlas.: Supplementary material: Photographic atlas. British Journal Of Dermatology 2020. Londres, p. 1-95. 19 abr. 2020.
  3. Association between periodontitis and severity of COVID-19 infection: A case-control study. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33527378/. Acesso dia 15 de março de 2021