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sábado, 5 de dezembro de 2020

Manuscritos antigos de Jundiaí revelam o papel da mulher do século 17

Entre os suplicantes das “Cartas de Datas” estavam mulheres que requisitaram posse de terras ao poder público para cultivo de subsistência e construção de moradia em Jundiaí, interior de São Paulo
Mais que analisar estruturas textuais e linguísticas e interpretar escritos antigos, a Filologia como uma ciência humana pode nos surpreender e revelar “camadas existentes de uma sociedade” do passado. Foi o que ocorreu em um estudo que fez a transcrição de “Cartas de Datas”, uma espécie de escrituras da terra, de Jundiaí, em meados do século 17. Na época, em meio a pedidos de posse, mulheres viúvas, casadas e solteiras constavam entre as “suplicantas” de extensas áreas, dirigidas ao poder público da cidade. Os manuscritos antigos (1657), que datam do período colonial, estão hoje arquivados no Centro de Memória do município de Jundiaí, interior do Estado de São Paulo, e foram objeto de estudo da pesquisadora Kathlin Carla de Morais, pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.
As porções de chãos recebidas eram incorporadas ao redor da igreja matriz (onde hoje está situada a Igreja Nossa Senhora dos Desterros), região em que teria acontecido o possível início do povoamento urbano de Jundiaí. “Posteriormente, o proprietário ficava obrigado a fazer doações à Igreja e cuidar da entrada da propriedade, de modo a tornar possível a passagem de pessoas e animais grandes, como cavalos e bois”, conta Kathlin ao Jornal da USP.
Segundo o estudo, esse entrelaçamento de poderes religiosos, políticos e culturais pode ser explicado nesse período pelo fato de as câmaras municipais terem sido os órgãos reguladores de tudo o que acontecia na região. As diretrizes que seguiam eram inspiradas em fontes do sistema judiciário de Portugal, que tratavam sobre as relações do Estado com a Igreja e norteavam os processos civis e comerciais, tendo como base o direito romano e canônico. Este esquema de concessão de terras durou até o século 19 com a Lei de Terras (1850), que passa a usar o modelo de compra e venda para a aquisição de chãos.

Fonte : Jornal USP
Autor - Ivanir Ferreira

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